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domingo, 22 de julho de 2012

A história da estória: Alô Dolly!


O escritor americano Thornton Wilder (1897/1975) se baseou em duas comédias do século 19 (uma austríaca e outra inglesa) para escrever a peça The Merchant of Yonkers, em 1938. Levada ao palco em Nova York, foi um desastre. Passados 17 anos, o renomado diretor inglês Tyrone Guthrie (1900/1971) expressou o desejo de revisitar o texto fracassado de Thornton. Ao invés de simplesmente adaptar o texto original para impedir novo fracasso, o autor resolveu reescrever a peça, indo beber na fonte original dos textos do século 19: a Aululária de Plauto e o Avarento de Molière. E desse novo trabalho surgiu The Matchmaker (A Casamenteira). O personagem da alcoviteira Dolly Levi é filha legítima da Frosine de Molière, assim como Harpagon seria o alterego de Horace Vandergelder.
Ruth Gordon foi a primeira Dolly, e a peça teve bastante sucesso em sua estréia, em 1955. A peça virou um filme com Shirley Booth e Paul Ford em 1958. Em 1964, Thornton exorcizaria de uma vez por todas o doloroso fracasso de 1938: The Matchmaker foi transformada em musical, com libreto de Michael Stewart (1924/1987) e música e letras de Jerry Herman (1931). Rebatizada de Hello, Dolly!, a peça tornou-se um sucesso fulminante na Broadway. Mas não sem percalços.
Inicialmente, Ethel Merman e Mary Martin foram cotadas para o papel de Dolly. Ambas recusaram (embora tenham acabado interpretando a personagem em montagens posteriores). Na quarta ou quinta tentativa, o produtor David Merrick chamou a excelente Carol Channing (que por sinal tem exatamente a mesma idade de Bibi). A atriz realizou um trabalho extraordinário e o espetáculo abocanhou nada menos do que dez prêmios Tony.


Foi nesse momento que o espetáculo chamou a atenção dos produtores de Bibi, no Brasil. Não só a atriz vinha imbuída de uma aura de sucesso absoluto com a montagem de My Fair Lady, mas o próprio espetáculo de Herman e Stewart vinha se provando um blockbuster sem precedentes pelo mundo todo.
A produção, desta vez, recaiu apenas sobre Victor Berbara, que já produzira o My Fair Lady de Bibi e Paulo Autran. A tradução do libreto e das músicas ficou a cargo de Haroldo Barbosa, o próprio Berbara e o escritor Max Nunes. As coreografias originais de Gower Champion, também diretor do espetáculo na Broadway, foram supervisionadas no Brasil por Lowell Purvis. Durante o período de ensaios, Bibi deu um jeito de viajar a Nova York para trocar idéias com a grande Ginger Rogers, que assumiu o papel de Dolly quando Carol Channing saiu da peça.
 Alô, Dolly! estreou em março de 1966, no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro. Bibi encarnou Dolly e contracenou com Paulo Fortes - o maior barítono brasileiro do século 20, e com quem Bibi dizia ter aprendido tudo sobre o canto lírico - Augusto César Vanucci (que pouco antes de morrer dirigiu o Bibi in Concert especial para a Globo, em 91), Lisia Demôro (que vinha de fazer My fair Lady com Bibi), Hilton Prado, Marli Tavares e grande elenco, de onde se destacava o mestre Milton Carneiro, responsável pelas maiores gargalhadas e aplausos em cena aberta de toda a peça. É um verdadeiro tour de force. Em My Fair Lady é seguro dizer que havia pouquíssimo espaço para qualquer um brilhar, a não ser Bibi e Paulo Autran, e, num segundo plano, Jayme Costa e Hélio Paiva. Em Dolly!, Hilton Prado, e sobretudo Lísia Demôro brilham intensamente com suas vozes de tenor e soprano.



Mas merece destaque o comentário do jornalista Paulo Salgado sobre Paulo Fortes (1923/1997), pois nos dá a medida exata do patamar de respeito em que todos tinham esse nosso maravilhoso artista: "Não havia, no nosso mundo teatral, outro artista que pudesse viver com tanta correção Horatio Vandergelder a não ser o barítono Paulo Fortes. Só podemos expressar nossa admiração ao belo trabalho do grande intérprete de Falstaff dizendo: Obrigado, Paulo Fortes, continue a dar ao teatro musicado este seu grande talento histriônico e esta belíssima voz! Paulo Fortes, depois de ter conquistado o público de ópera e de televisão, vai tomar de assalto as platéias dos musicais. É bom ver um artista de tanta classe no tradicional Teatro João Caetano". (Revista Querida, abril de 1966)
Não sei ao certo quanto durou a temporada de Dolly! mas ela ultrapassou as 300 apresentações. O sucesso, ou melhor, a longevidade de My Fair Lady não foi repetida, talvez porque a temática excessivamente americana da peça perdesse um pouco a graça no Brasil, ou porque o objetivo não fosse esticar a temporada por anos, como foi o caso do musical de Lerner e Lowe. O certo é que a recepção foi a melhor possível. Sobre Bibi, eis o que disse o mesmo Paulo Salgado: "Fazemos questão de iniciar este nosso comentário prestando uma homenagem toda especial a esta grande atriz, que soube ser, com graça, leveza, com acerto e alegria, a deliciosa personagem criada originalmente por Thornton Wilder e musicada por Jerry Herman. Raramente temos visto uma atriz comunicar tão rapidamente seu personagem à platéia como Bibi nessa peça".
Depois de Dolly!, Bibi ficou 6 anos longe dos palcos, para onde só voltou em 72 com Paulo Autran, em Homem de la Mancha. Durante esse período dirigiu alguns espetáculos, mas trabalhou quase que exclusivamente em televisão.

O sucesso financeiro das sucessivas montagens do musical nos teatros e a venda posterior dos direitos para o cinema fizeram do velho Thornton Wilder um homem rico e ele viveu feliz e tranqüilo seus últimos 15 anos de vida.

O musical virou filme em 1969, pelas mãos do mestre Gene Kelly. A produção milionária estrelada por Barbra Streisend decepcionou crítica e público e foi um fracasso financeiro. Uma das críticas, além do que teria sido uma direção pouco inspirada de Gene Kelly, se assemelha muito ao que aconteceu com o filme de My Fair Lady, em que uma atriz de teatro (Julie Andrews) foi substituída por alguém supostamente mais rentável em termos cinematográficos (Audrey Hepburn). Neste caso, Carol Channing foi substituída por Barbra Streisend. Mais um erro abismal. Streisend tinha 27 anos na época; era, portanto, absurdamente jovem para o papel de Dolly. Como se isso não bastasse, ambas já haviam concorrido, uma com a outra, pelo Tony de melhor atriz, Channing por Dolly! e Streisend por Funny Girl. Channing levou a estatueta para casa. O feito se repetiu por vias tortas: o filme de Gene Kelly foi indicado a sete Oscars; Streisend foi ignorada.


Outra crítica é a de que as músicas de Jerry Herman ironicamente funcionavam melhor com uma atriz cômica que não cantava nada - como Carol Channing - do que com uma boa cantora distante da personalidade da personagem, que era o caso de Streisend.



A crítica não se adequaria à situação brasileira, pois Bibi tinha todos os atributos para o papel, desde o talento vocal e cômico até o physique du role, mas, de fato, por vezes eu tenho a impressão de que esse papel não exige muito da voz de Bibi, e que são poucas as oportunidades que ela teve para realmente mostrar toda sua potência como cantora. Pode ser que ela tenha aceito o papel justamente para exercitar sua veia cômica, saindo da "ingênua-ignorante" diretamente para a "cortesã-aposentada", como a imprensa da época caracterizou Eliza e Dolly.
Uma curiosidade é que a música Na marcha da vida a passar (Before the parade passes by) anos mais tarde se tornou a música de abertura do extinto programa de Jô Soares, Viva o Gordo.

Texto originalmente publicado em bernardoschmidt.blogspot.com.br, adaptado para esta publicação. Todos os direitos do texto reservados a Bernardo Schmidt.