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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

[V>Hollywood] Entrevista com James Cameron


A revista Época dessa semana publicou uma entrevista com o diretor de AVATAR. James Cameron depois de 12 anos após seu TITANIC, volta à público para apresentar mais uma de suas idéias geniais e conquistar a todos. Leia trechos da entrevista publicada na revista número 605.



ÉPOCA – Seu filme é ambientado em uma selva extraterrestre. Muitas vezes lembra a selva brasileira. Vocês captaram imagens da floresta equatorial? 


James Cameron – Eu nunca fui ao Brasil, você acredita? E é uma das coisas que ainda quero fazer. A ideia inicial era levar a equipe para filmar na Amazônia. Mas aí pensamos que iria ser algo prejudicial à natureza; os caminhões, o equipamento pesado e uma equipe enorme iriam perturbar a paz da selva. Um filme com uma mensagem preservacionista praticando infrações a um ecossistema seria péssimo!



ÉPOCA – E como vocês criaram a ambientação? 


Cameron – Fomos ao Havaí, a equipe e o elenco, até porque eu queria que todos tivessem a experiência de adentrar uma selva. Seguimos por uma trilha e a reação dos atores foi incrível, porque eles começaram a interagir com o meio ambiente e a entender o impacto que uma selva densa tem sobre os sentidos. Algumas imagens foram captadas ali, outras na Nova Zelândia. Com a câmera estereoscópica tridimensional, os detalhes e a luz naturais resultaram mais nítidos e poéticos que filmagens habituais dentro da selva.



ÉPOCA – O visual das cenas de natureza é quase surrealista. De onde o senhor tirou inspiração para imagens mágicas como das rochas flutuantes e dos pássaros gigantes coloridos? Vieram de algum pintor específico, de um cineasta, de uma obra de arte? 


Cameron – Na verdade, me inspirei diretamente na natureza, em plantas, insetos, rochas – em especial na flora e na fauna do fundo do mar. Eu cresci fazendo minhas expedições na mata que havia perto de minha casa no Canadá. Não era a selva amazônica, mas havia um ecossistema variado. Eu adorava coletar material, amostras de pedras, plantas, algas, insetos. Houve um momento de minha vida em que a exploração da natureza me absorveu completamente. Tudo isso se reflete em meus filmes. Avatar é mais um deles.



ÉPOCA – Em Avatar, a sensação de entrar na selva do planeta Pandora é de uma descoberta de cores, de uma súbita iluminação dos sentidos. O que foi necessário para criar tamanho impacto? 


Cameron – Pedi à equipe que elaborasse um novo padrão de luminosidade, que reproduzisse ainda que parcialmente a riqueza da paleta de cores de uma selva. Os sapos anões, por exemplo, emitem uma luz azul tão intensa que parece irreal. Eles fazem isso para não ser atacados. E assim por diante. Eu me inspirei em feras e animais reais para recriá-los como alienígenas. A gente se inspirou em borboletas para dar as cores berrantes dos pássaros gigantes. Há correspondentes a cavalos, javalis e tigres alienígenas. A gente quis restaurar o espanto que sentimos dentro de uma selva de verdade. Como se trata de um filme de fantasia, era necessário soprar verossimilhança em um meio ambiente selvagem estranho.



ÉPOCA – Outro aspecto que diz respeito à selva é o enredo, que trata do genocídio indígena. O que o senhor pretendeu com isso? 


Cameron – Eu quis de certa forma mostrar que a ambição humana é capaz das maiores monstruosidades. A busca de um minério – no caso, o “unobtainium”, existente apenas no planeta Pandora, que resolveria a escassez de energia da Terra – provoca em Avatar uma guerra terrível dos humanos contra os n’avis, com mortes, destruição e fome. E é claro que as vítimas são os indígenas, que lutam com lanças e flechas contra canhões, helicópteros e mísseis. Esse tipo de conflito se passou nas guerras coloniais e acontece na selva amazônica neste momento.



ÉPOCA – Com um tema desses, como foi lidar com a mentalidade dos estúdios de Hollywood? 


Cameron – Eu faço o que penso e o que me manda a consciência. Eu seria o primeiro a ser fuzilado pelos nazistas. Quem tem espírito crítico sempre é eliminado. Felizmente, ainda consigo impor minhas ideias.



ÉPOCA – O enredo do filme sugere uma série de interpretações possíveis, políticas, ecológicas e filosóficas. Mas o heroísmo e a emoção são dois traços sempre enfatizados em seus filmes. No caso de Jake Sully (Sam Worthington), o senhor quebrou o paradigma do herói típico americano, guerreiro justo.Avatar representa uma inversão de valores em relação à abordagem do herói americano? 


Cameron – Certamente sim. O herói do cinema americano é aquele que jamais trai sua pátria, sua gente. E isso é justamente o que Jake faz, porque para ele é mais importante fazer o que manda sua consciência, nem que para isso seja necessário se voltar contra seu próprio planeta. É um dos momentos cruciais do filme, quando o coronel Miles Quairitch (Stephen Lang) grita a Jake: “Você traiu sua raça!”. Seria imperdoável essa atitude de Jake no cinema tradicional. Mas os tempos são outros. Vivemos outra realidade de conflitos nunca bem explicados, e Jake é um herói contemporâneo. Ele prefere se tornar indígena extraterrestre a continuar praticando um morticínio. E o público se identifica com ele e com a resistência dos n’avis. É preciso abrir os olhos do público para o mundo em que ele vive.



ÉPOCA – Que possibilidades a nova linguagem traz, além de garantir que o público siga indo ao cinema? 


Cameron – Um cineasta cerebral amigo meu disse-me que, depois de ter visto Avatar, passou dias pensando no filme. Desconfio que a imagem tridimensional afeta áreas do cérebro que o cinema 2-D convencional jamais atingiu. Ela provoca sinapses e inter-relações diferentes. A perspectiva foi desenvolvida na Renascença a partir da observação da forma como o olho humano percebe o ponto de fuga. Esse padrão continuou no cinema convencional. Agora, com o 3-D estereoscópico, outras associações neuronais são produzidas e ainda não sabemos até onde podemos ir com a imagem tridimensional. Alguns cientistas que consultei na pesquisa dizem que ela atinge áreas da memória, e, por isso, o cérebro as grava e as mantém por mais tempo. O novo modelo de imagem possui um poder enorme, e ainda vamos compreendê-lo. Não é por outro motivo que estão sendo produzidos aparelhos de televisão em 3-D e que os primeiros comerciais 3-D vão aparecer na televisão em breve.



ÉPOCA – Qual é o futuro do cinema? 


Cameron – Ele está ligado às conquistas tecnológicas e às artísticas. O futuro do cinema é uma fusão entre tecnologia – 2-D, 3-D e da geração digital de imagens – e talento. Será o que nós, cineastas, fizermos com essa arte. Não adianta um sujeito como eu, que apostou tanto nesse novo meio, ficar sozinho. Acredito que outros diretores vão entender que esse é o caminho de uma nova forma de arte.